quarta-feira, 21 de abril de 2010

Brasília: Underground love



Por: Ana Paula Naps.

Cinqüentenário de Brasília comerorando-se hoje.
Criada em 1960 a partir de um devaneio visionário do homem de Diamantina , Kubitschek, teve por objetivo retirar o poder executivo da "borda" e cumprir certo equilíbrio às já lotadíssimas metrópoles vigentes.
De concepção polêmica, deu-nos de presente uma dívida externa onerosa , levando décadas (e acúmulo indecente de juros) a ser finalmente paga.
Montada por bolinhas e quadrados futurísticos pelo Niemeyer, a cidade do futuro que agora, em 2010, mais parece um filme de ficção científica da década de sessenta .
Na arquitetura,
pressente-se algo que transita entre uma grande esperança de que as coisas ao serem vastas e limpas seriam , por isso, acessíveis.
Mas a verdade é que, ao passo de ter se tornado a síntese do sentimento de estranheza humano em meio a todo o concreto pintado de branco , a primeira pergunta que nos assola após alguma recuperação do estado racional é: vive gente aquì?
Vive!
A cinqüentona hoje ainda é pré-adolescente. Vocês sabem, em contagem histórica, cinqüenta anos não é nada! A busca por uma unicidade ( identidade em formação , talvez para sempre em formação , eu diria ) fez do brasiliense uma massa confusa de naturezas várias e não somente de toda a parte , mas ainda cortada em gerações, a cumprirem o estrito direito da civilidade sem, no entanto, sentir-se acomodado e natural do lugar. Em Brasília nós sempre conferimos ao próximo um "bom dia", mas ele nunca vem precedido de sorriso.
E
antes que você possa ficar chateado com isso , vai tomar um encontrão na rua pelo menos umas duas vezes, de tão absorta é a gente daqui.
Essa frieza que se tornou tão característica, ao contrário de ser alguma coisa arrogante, é muito mais a sensação de deslocamento permanente que uma interpretação filosófica complexa.
O que fazer em uma cidade que foi intencionalmente concebida para não ter esquinas e praças? Sem esses dois patrimônios da conversa solta, como criar laços?
Perfeitamente equilibrado, o Plano Piloto de Lúcio Costa só comporta gente porque cidades ainda não foram inventadas para organizar mosquitos. Falando em mosquitos, tem uma praga de poodles aqui também.
Nada contra os poodles, mas, por que somente poodles?
Bem, essa é um pouco da Brasília que eu conheço, convivo e ainda gosto. E é claro que ela tem boas coisas: por exemplo, é limpa e magistral mente arborizada.
Dentro dela , em qualquer quadra, você pode entrar em contato mínimo com a natureza híbrida, namorar os ipês do cerrado e as mangueiras junto com os passarinhos ..
Na primavera , todas as árvores recebem a visita das cigarras que em uníssono tomam conta do espaço sonoro em uma anunciação ensurdecedora de tal forma , que chega a conferir dor de cabeça ao cidadão .
Mas ainda assim a esse convívio de gente e folhas é que devemos o alívio de poder olhar janela afora e, mesmo estando em uma metrópole, não se afundar em qualquer neurose que remeta a uma saudade completa do orgânico.
Passados esses breves cinqüenta anos, afora a vontade que cada brasileiro tem de explodir o Congresso Nacional, me pergunto o que restou da Brasília primeira.
O que ainda pertence de fato ao brasiliense, o prático legado dos pioneiros, os candangos?
Para mim a resposta é fácil: o Conic.
Situado no centro da cidade , este enorme, decadente e maltratado prédio,
guarda em suas infindáveis galerias pedaços d
o coração velho.
São artérias pulsantes e culturalmente recicláveis que para mim representa a síntese do " working class heroi " e seus descendentes. Inaugurado em
1967, foi o primeiro edifício voltado para a Esplanada dos Ministérios.
Por ter sido construído por uma empreiteira pernambucana de mesmo nome, a placa indicando sua autoria acabou por nomear o edifício em definitivo .
Apesar de um tanto feio e abandonado pelas autoridades, ainda é referência física para o centro da cidade, uma vez localizado entre a Torre de TV e a Esplanada, sendo possível ainda enxergar a partir dele o Teatro Nacional (pirâmide moderna da cultura, ainda acessível àqueles que apreciam música clássica - toda terça-feira, se não me engano, tem música erudita de graça por lá).
Mas é do Conic que estamos falando....
Na entrada principal (existem várias) o Teatro Dulcina, excelente escola de teatro e referência cultural na cidade.
Por dentro, uma praça já que o prédio não é inteiramente fechado.
À direita das galerias, uma “artéria".
Quiosque Cultural, antigo sebo contendo raridades e livros usados em geral.
História da Donzela Teodora e O Mago Alquimista vendedor de Visão ” são exemplos da literatura de cordel, item tradicional do Quiosque
Mais anos 80 que isso, impossível!
Loja de instrumentos musicais, point de quem está aprendendo a tocar violão
Loja de música mais antiga de Brasília – ótima para encontrar partituras raras.
Auto-explicativa! Ponto obrigatório para os aficionados em HQs, colecionadores e todos os nerds de Brasília! Tem ótimas camisetas de rock também.
O “Corredor da Morte” para as empresas em geral – galeria dos sindicatos – tem uma energia incrível durante a semana, quando as reuniões e greves estão fervendo. Aqui a dignidade do trabalhador pode ser tocada no ar.
Robusta ordem !
Negroblue – artigos transados com apelo Black Power – camisetas ótimas!
Entrando na galeria central, um salão de beleza afro seguido de uma Tattoo shop . Meu primeiro piercing no nariz foi ali! (tá, já tirei, já tirei...)
Ainda na galeria, Marola Discos – e roupas para “manos”! Tá ligado?
Fechando a galeria, roupas militares para geeks e galera do rock´n roll – que não dispensa um coturno!
No externo da galeria central – uma loja de livros evangélicos ao lado de uma casa de calcinhas!
Falando em lingerie, tem a Via Sexy – a única sex shop que eu conheço onde as meninas não sentem pudor ao entrar – porque segundo elas (e eu também), as fantasias são “super-fofas”.
Ótima para comprar meia-calças também!
Na loja de Açaí logo à direita, para dar uma forcinha extra a rapaziada.
Na minha época o lance era patins, mas a Fun House não se esqueceu dos skatistas – loja especializada e também referência para menores de 18 anos na cidade.
Patrimônio do Conic, as camisetas são tão bacanas e criativas que virou acessório único de identidade! Todo mundo tem uma – inclusive a camiseta-homenagem “Conic Fashion Week ”.
Café Eldorado, point intelectual e popular, muito bacaninha e aconchegante.
Para finalizar (e inverter um pouco a ordem) uma homenagem de quem luta para quem lutou. Inscrição:
“Zumbi dos Palmares - O líder negro de todas as raças - Homenagem da CUT/DF aos 300 anos de imortalidade”
Ah, só mais uma nota importante: depois das vinte horas, não convém visitar o prédio, pois o “serviço” e a “clientela” são outros...
Feliz cinqüentenário, Brasília underground!

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