Tia Didoca, uma Sacana Extraordinária
Toda família tem alguém que não se compara a ninguém.
Uma pessoa absolutamente incomum, que possui o dom de transformar nossa passagem com a sua. Essa pessoa, para o meu pai, foi a Didoca e, de tanto escutar suas estórias alegres e de ver no seu rosto um sorriso aberto ao mencionar essa tia predileta, guardei desde pequena a sensação de que aquelas lembranças também foram minhas.
Vou apresentar a vocês a Tia Didoca em um lugar pouco provável: um hospital. Na época, ela transformou a estadia do meu pai em algo muito menos desagradável. Por conta da retirada de uma baita pedra no rim, ele passou um bom tempo resguardando impaciente a alta que se alongava.
Desnecessário explicar como hospital é um saco, quem de nós não pica a mula ao menor sinal de melhora? Mas, para alívio do meu pai na ocasião, houve dois atenuantes interconectados que fizeram toda a diferença: a deliciosa marmita diária, acompanhada dos “causos” da Tia Didoca.
Às vezes era necessário retirá-la do quarto, pois a risada franca do meu pai ameaçava estourar os pontos da cirurgia, além de atrapalhar o sossego dos outros enfermos. A primeira “ameaça” ocorreu quando tia Didoca levou o pijama de seda do marido para o hospital (naquela época toda a família era pobre, tendo mesmo só o necessário à preservação da dignidade) devido à falta de roupas adequadas para descanso. Olhando aquilo, meu pai se enrubesceu preocupado, pois sabia que o tio guardava aquele conjunto italiano como se fosse uma jóia da família, já que todo mineiro tem uma roupa para apodrecer no armário porque ela é boa demais para ser usada. Ressabiado, protestou:
- Tia, não faz isso, ele adora esse pijama!- Que é isso, meu filho, essa coisa aí só serve pra chamar traça. O Jofre é um bobão, quando você melhorar eu dou as abotoaduras também. Veste, anda!
Essa era a parte que o tio Jofre entrava nos “causos” e ameaçava um complô indireto aos pontos do meu pai. Dois “causos” em particular foram coadjuvantes de um quase revertério na convalescência.
Contou tia Didoca que o Jofre teimoso precisava ser vigiado dia e noite por conta da saúde que não permitia cigarro. Cuidar não era problema para ela, mas já para o tio, se livrar da vigilância da esposa era tarefa hercúlea. No entanto ele conseguiu uma brechinha feliz durante a feira semanal, quando ela saía. Mas tão logo a porta fechou e tio Jofre deu um par de baforadas em seu furtivo cigarrinho, ah o deleite proibido, escutou a chave rodando no miolo. Se deu conta que o racional lhe pregou uma boa, já que não contou com os instintos da esposa. Seu pânico foi tal que não lembrou sequer de apagar o cigarro:
- Jofre? Uai Jofre, o que você está fazendo atrás da cortina?- Heim? Estava matando um bicho...
Saiu como se tivesse terminado o serviço, mas, acabou esquecendo o cigarro no afã do medo. Acabou por tocar fogo à cortina e por pouco não foi a casa junto.
E lá se vai outro pontinho da operação, mas o “causo” derradeiro ocorreu quando tia Didoca, no quieto da noite, ouviu um barulho estranho vindo do marido. Como ele não reclamou nem a acordou com suas lamúrias corriqueiras, desconfiou que algum rolo haveria de ter. Fingiu dormir e ficou a escutar o marido se erguendo mui vagarosamente. Estando em pé, ele foi com passinhos curtos e de pluma, até à pia do banheiro (nas casas antigas, a pia ficava fora, coisa parecida com lavabo). Ao escutar a torneira aberta, a tia julgou que era hora de verificar o ocorrido. Então, em passos ainda mais leves, típicos de quem conhece cada irregularidade do chão da casa, tia Didoca se postou a poucos centímetros por detrás do marido e soltou em muito bom som:
- BONITO, heim Jofre? Lavando a cueca toda cagada!- Mãe de Deus, Didoca, tá louca? Quer me causar um enfarto do miocárdio?
Ela realmente quase o matou de susto. E depois dessa passagem foi necessário retirá-la do hospital, já que meu pai começou a passar mal de tanto rir, mas retornou no dia seguinte, como de costume, só pegando um pouco mais leve. Afinal de contas, seu sobrinho preferido não poderia sobreviver naquele lugar sem uma comidinha caseira! Essas marmitas para ele tinham um gosto especial de juventude. Na condição de estudante quebrado (meu avô, com medo do “desvio” dos filhos, não admitia que trabalhassem sem o diploma nas mãos), ia juntando as moedinhas até conseguir comprar no açougue uma carne barata para levar à tia e poder acompanhá-la no almoço (porque mineiro nunca entra na casa de alguém sem nada nas mãos). E que destreza a dela em transformar qualquer comida muito simples em um banquete! Da sua horta bem cuidada saíam as verduras e os temperos frescos, sem contar a alquimia culinária que, segundo papito, quanto mais barata a carne, mais delicioso o almoço! Como é que pode... E assim ele relembrou dias muito felizes onde ela recebia a visita do sobrinho querido e a ele, guardava um refúgio nessa guarida carinhosa e aconchegante, salpicada de conversas divertidas... O resto da estória eu consegui com a irmã do meu pai, tia Dione. Convém dizer que, naquele mar de italianos branquelos de olhos claros, tia Didoca era uma exuberante mulata desafiadora que, sem contrariar o preconceito vigente, causava desconforto. Minha avó, sua madrinha, se opôs ferreamente ao casamento com o parente Jofre. Aí nesse ponto eu fiquei bem confusa sobre como é que a minha doce vovó-passarinho, que nunca meteu o nariz em matrimônio de alma alguma, nem sequer dos filhos, foi brigar logo por esse? Foi então que tia Dione me informou sobre a oposição da avó ser fruto de um medo consciente da família em si; suspeita assustadora de mágoa para uma menina tão querida. Bem, de qualquer forma, tia Didoca se casou e teve quatro filhos branquelos de olhos claros: saudáveis, belos e bem-sucedidos, mas infelizmente nenhum que lhe fizesse solidariedade à cor.
Naquele mar de racistas pretensiosos e ingratos, todos os rebentos ao enriquecer, resolveram anexar a seu novo status a vergonha da mãe. Com isso e contra a vontade, tornou tia Didoca uma avó distante e só, coisa que a remeteu a um profundo e justificado ressentimento. E foi após o falecimento do tio Jofre que decidiu permanecer até o resto da vida em sua casa, com os próprios recursos e sua horta perfeita, sem a ajuda de ninguém e sem querê-la a custo algum. E para não ser injusta, aceitou por insistência que um de seus filhos passasse um tempo enviando cerca de cem reais ao mês. Muito garboso e feliz de tamanha generosidade, um belo dia pediu as contas da benevolência:
- Mãe, o que você fez com os cem reais que eu te mandei todo mês?- Uai meu filho, eu enfiei no c...
Mas a vida tem reviravoltas interessantíssimas, como todos sabem. Na ocasião do casamento de um dos netos, a noiva fez questão de conhecer essa avó perdida. E qual foi a alegria e a conexão imediata quando as duas se olharam pela primeira vez: finalmente mais uma linda e exuberante mulata na família! No meio desse acontecimento inesperado surgiu uma comoção silenciosa e ambas descobriram uma ilha de afeto, sendo este o casamento que tia Didoca participou com o maior gosto e orgulho em sua vida. Era como se ela revivesse o próprio matrimônio, porém, dessa vez, tendo alguém que guardasse seus sentimentos na cerimônia.
Mas então, eu, na condição de pessoa distante desses acontecimentos, só tive mesmo um breve encontro com ela, na ocasião do agravamento da doença da avozinha, pouco antes do seu falecimento. Tia Didoca apareceu por lá e coincidentemente eu estava visitando a parentada. E lá veio ela, trazendo sua couve perfeita da horta igual, entrando pelas portas do fundo e conversando sobre coisas muito antigas, anteriores a mim. Eu fiquei lá, meio besta com essa mulher que passou dos noventa e parecia não ter chegado aos setenta. Forte e incisiva, sua presença tomou inadvertidamente toda a cozinha e confesso que apesar de ter prestado a maior atenção no que ela dizia, não consigo me lembrar de muita coisa, tamanha a impressão que me causou. O que realmente me lembro foi o fato de haver uma senhora desagradável que ninguém tinha coragem de dar um passa-fora. A esse ponto, não é preciso dizer que isso não é problema para a tia Didoca. Mas a tal senhora não gostou de toda aquela aura de intimidade familiar adornando o vulto da tia e teve a infelicidade de vir com essa:
- Nossa, esse café está muito ruim. Dioooone, faz um novinho pra “visita”!
Não passaram dois segundos:
- O café pra mim está ótimo; se você não gosta, então faz. Dione, sai de perto desse coador agora!
E pronto. A conversa continuou como se nada tivesse ocorrido. Bem, pelo menos para nós.Tia Didoca faleceu pouco tempo depois, conforme minha tia contou. Perguntei o que poderia ter ocorrido com uma mulher tão robusta e sem doença no corpo. Ela me disse que a tia, na ocasião do aniversário, fez uma comida digna de um bacante, comprou boa quantidade de vinho, chamou as amigas e festejou em casa a noite inteira. Feliz e cansada, foi dormir e nunca mais acordou.
Tia Didoca tinha 93 anos de idade. Até seu último aniversário, a horta estava como ela: perfeita.
PS.: infelizmente eu não tenho nenhuma foto dela então, posto aqui a imagem de alguém que a amou profundamente: meu pai.
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