segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Bússola de Ouro (The Golden Compass, 2007)




Por Ana Paula Naps

Enquanto o cinema para adultos parece dividir-se entre blockbusters de super-heróis ou absurdos violentos e desnecessários na autoria independente (vide - ou não! - o medonho "O Anticristo", de Lars Von Trier), existe um nicho que, cada vez mais amadurecido, têm recuperado a capacidade de sonhar das crianças e o prazer dos pais em acompanhá-las para a sessão pipoca: o cinema infantil. Das incríveis e divertidas animações da Pixar/Disney/Dreamworks, temos uma nova leitura sobre como temas adultos podem ser facilmente compreendidos por crianças, não mais subestimadas pela idade. O pirralho moderno é exigente e cerebral. Da desconstrução completa dos contos de fadas em Shrek à delicadeza eco-consciente no delicado WALL-E, um novo panorama sobre a fantasia foi proposto para que pais e mães do novo milênio se divirtam também. Este olhar complexo sobre as nuances do que é certo e errado, cria uma aproximação solidária entre pais e filhos e aponta uma nova abordagem de confronto da realidade: estamos no mesmo barco e algumas vezes, ele é furado!
Seguindo essa vertente também chegaram os filmes fantásticos, cuja classificação de idade chega a ser um desafio: é fácil, por exemplo, perceber que o "Labirinto do Fauno" é adulto e "Harry Potter" é adolescente, mas como classificar "Desventuras em Série" ou "As Crônicas de Nárnia", onde problemas reais e complicados como abandono, orfandade e guerra se mesclam com animais falantes, semideuses e seres humanos que, na escala do bem e do mal, não mais se classificam? Este também é o caso do filme "A Bússola de Ouro", que é o tema deste post.
Criado a partir do livro homônimo pelos diretores da trilogia "O Senhor dos Anéis", seu investimento de cento e oitenta milhões infelizmente não alcançou a meta para a continuidade de uma também, trilogia, chamada "Fronteiras do Universo". Mas este filme, por si só, apesar de deixar um pouco de frustração pelo fim que suplica uma sequência, possui tantos significados que só a sua produção já valeu a pena. "A Bússola de Ouro" é a estória da pequena Lyra Belacqua, órfã tutelada por um duro Lorde Asriel e protegida da Sra. Coulter (Nicole Kidman - tão plastificada para esse filme que sua interpretação de mulher cruel e insensível parece ser graças ao botox) que sai em busca do amigo sequestrado (Roger), com a ajuda de uma bússola que responde a qualquer pergunta sobre qualquer coisa. O filme, que mistura animais falantes, bruxas, ciganos (revertendo o nome "gipsy" - cigano em inglês - para "gipsyans" - algo como egípcios) e um cowboy que pilota um barco voador, tem como pano de fundo um regime político chamado Magisterium, uma ditadura cujo objetivo para deter o livre arbítrio e obter maior controle consiste em separar as crianças de seus "daemons" antes que virem adultos e passem a tomar suas próprias decisões.
O daemon de uma criança é um espírito em forma de animal mutante, ora um gatinho, ora um rato, por exemplo (muda conforme o seu estado de espírito e sentimentos), que nunca é separado dela. Ao crescer, o animal passa a fundir-se ao corpo e alma da criança, tornando os dois uma coisa só. O Magisterium então cria uma máquina experimental localizada no Ártico para separar o daemon de seus pequenos donos, fato que o filme mostra claramente como uma lobotomia. Feita a separação, a criança vira um corpo doente e vazio. É para lá então que Lyra inicia sua aventura, em socorro do amigo sequestrado, pedindo antes reforço a um príncipe urso que está na cidade e guiada por um cowboy cujo serviço, diferente do urso, é contratado.
Essa também é uma parte impressionante, dada a realidade do contexto. Este príncipe (Iorek Byrnison), outrora imponente e absoluto em seu reino no extremo gelo, é encontrado na porta de um boteco fazendo às vezes de "leão de chácara" tendo whisky por pagamento. Nesse choque de realidade, ela o confronta sobre a triste situação e ele diz que sem a armadura não é nada, quando é informado pela menina que foi objeto de um golpe e de uma luta injusta (fato que ela enxerga, é claro, com a ajuda da Bússola). Eles então partem em busca do garoto Roger e Iorek, na recuperação do seu trono e dignidade. Uma cena interessante, que considero uma verdadeira quebra do elo tradicional criado pela Disney onde animais falantes são sempre submissos às vontades das crianças, acontece quando Lyra pede ao Príncipe-Urso que a leve para recuperar uma criança gipsyan, indicada pela Bússola e abandonada à morte após o corte do seu daemon em uma cabana próxima. Iorek, pasmo e meio indignado, questiona: "Você quer montar em mim?". Bem, ela eventualmente consegue, mas as regras aqui são outras. O que prevalece é a amizade, não a bondade fofinha.
Vários pactos são feitos durante o decorrer do filme, cujo clímax começa na batalha pelo reinado polar e vai até a união das bruxas, dos gipsyans e de Iorek para a libertação das crianças que estão em fase de separação do seu daemon, na unidade experimental do Magisterium. Tanto a luta de Iorek com o urso golpista quanto a guerra para libertar as crianças são de uma realidade causticante e de extrema violência. Não parece sequer um filme infantil nesse momento, mas, se você observar os pequenos assistirem, vai perceber que é exatamente isso que eles esperam e compreendem como resultado de um mundo insalubre que não é e nunca lhes foi completamente desconhecido.
No final da batalha e já no barco voador do cowboy, a bruxa-rainha (Serafina Pekkala), em conversa com Lyra, avisa que a batalha pelo livre-arbítrio está apenas começando e que a menina é a chave decisiva para seu resultado. Enquanto isso, o Magisterium (alusão clara a um sistema teocrata, em especial o católico), busca uma maneira de aperfeiçoar o processo de cisão do daemon das crianças, por enquanto imperfeito, o mais rápido possível, antes que o "Pó" chegue ao mundo e o caos da rebelião se instaure. O filme não deixa claro o que realmente o "Pó" significa, mas dá dicas (novamente, uma pena não ter a continuação) que ele possa ser o sinal de que o uma nova ordem, gostando ou não, tomará conta dos céus e da humanidade. O “Pó” é a liberdade em seu primeiro encanto, um presente e um aviso de que novos mundos irão brevemente se cruzar.
E só para complicar um pouco mais a cabeça de quem percebe a realidade sem suas inúmeras matizes, Lyra descobre que é filha da Sra. Coulter com seu distante e amado pai Lorde Asriel, dois inimigos extremamente perigosos em suas funções. E que esta mesma Lyra, durante a batalha para a recuperação das crianças em experiência, só não teve o seu daemon separado porque sua mãe, a defensora da idéia, a resgatou a tempo.
"A Bússola de Ouro" é uma estória pagã sobre o livre arbítrio, a liberdade de pensamento e a pluraridade humanas. Para mim, o que mais aderiu na mente foi a exposição da criatividade libertária das crianças sob a forma de um animal-espírito que, enquanto crianças fazem da mudança algo natural e possível, ou melhor, enquanto crianças, nada é impossível - ainda que extremamente frágil.
O filme não deixa claro porque alguns adultos ainda possuem seus daemons (principalmente os rebeldes - de ambos os lados), mas deixa claro que não possuir um é motivo de muita inveja.
E você, ainda guarda seu daemon?



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